Como tudo começou

Quase a completar um ano.

Dia 25 de janeiro fará um ano que peguei minha bicicleta. É pouco tempo, pensando quantitativamente, e é tempo suficiente, penso hoje fazendo esse balanço da minha breve porém apaixonada trajetória como ciclista urbana.

Linha Amarela lotada. Foto de ViaTroleibus.

Linha Amarela lotada. Foto de ViaTroleibus.

Alguns amigos das antigas conhecem minha imensa indignação com o transporte público da minha querida São Paulo. Sempre foi um problema levar 2, 3 horas para percorrer poucos quilômetros cotidianamente apertada, empurrada e desrespeitada. Mas, em resumo, após constantes brigas e discussões com guardinhas da Linha Amarela (Bruna, aquele abraço), resolvi que não aceitaria mais aquele tratamento miserável que eu recebia após pagar a estuprante tarifa na catraca. Aquilo tinha que mudar. Esperei o World Bike Tour e resolvi um problema inicial: alto investimento em algo que fazia sentido na minha cabeça, mas não necessariamente na vida prática: ter uma magrela.

La PoderosaComecei com a La Poderosa, em humilde ciclo-homenagem ao arremedo de motocicleta, a Norton 500cc que carregou Che Guevara pela América do Sul. Levou onde ele precisava, era capenga porém honesta, e por isso essa menção: não foi a melhor bike que poderia ter na vida, mas me inaugurou uma vida que era muito melhor do que eu já levava.Li muitos blogs, alguns excelentes (recomendados no blogroll ao lado), e achei que estava pronta pra ir pras cabeças. Eu tinha alguns amigos ciclistas, era portanto possível que eu também pudesse sê-lo. Na primeira noite em que saí de casa pensei mirei um objetivo arrogante para meu nível zero de condicionamento físico: Avenida Paulista.

Minha primeira saída noturna

Minha primeira saída noturna

Menciono essa parte por dois motivos: primeiro para dizer que fui resgatada por um anjo no meio da Avenida Domingos de Morais por uma garota do coletivo Pedalinas. Bianca, eu não vou esquecer, porque se não fosse por você e tantas outras pedalinas incríveis que conheci depois, eu teria me acovardado e voltado para casa com trauma e frustração. Cheguei na Praça do Ciclista muito mais confiante, aprendendo a sinalizar e descobrindo que a buzinada atrás de mim era inconveniente e desrespeitosa, um corretivo para minha “audácia” de estar na rua. E o outro motivo foi um erro que incorri ainda algumas outras vezes, que é o de traçar trajetos pensando como um carro ou coletivo. Resolvi esse problema com uma ajuda literalmente angelical.

Cheia de mim e de saco cheio do governador, peguei a bike e aí então, comecei a ir ao trabalho de bicicleta. Surgiram os primeiros sustos e as já comuns alegrias, as primeiras finas e a soma semanal da economia de tempo e de humor resultante da minha escolha.

Altura do número 3000

 A bike não pára para “aguardar a movimentação do trem a frente”,  e com ela consegui além de melhorar a saúde física, dar um help na saúde mental, desestressar e voltar a me humanizar, condição que o transporte público vinha me roubando.

Tempo foi, tempo veio, a bicicleta se torna parte do meu dia a dia sendo útil e prazerosa, chegando a hora então de renovar os desafios: comecei com as cicloviagens, outro ponto de viragem na minha rotina. É tanto carinho e descrição, que remeto a outro post.

Meu debut foi na Rodovia Mogi Bertioga, a SP-098, com dois amigos ciclistas que me ensinaram muitas coisas que levarei para sempre como idéia e como prática.

SP 098Após essa, vieram outras mais, como a belíssima e por mim temida Estrada da Manutenção (para Santos), Paranapiacaba (a princesinha das estradas), Templo Zulai em Cotia.

Depois de tanto aprendizado e de me portar bem no trânsito, Madonna del Ghisallo deve ter olhado por mim. Inflamei meu ciático na Poderosa, tinha uma dor medonha no tornozelo, mas me negava a parar de pedalar. Entrei em um concurso de frases respondendo a pergunta: “De que maneira a bicicleta pode melhorar a sua vida na cidade?”

Num insight autoral, extraí a pérola que me deu Brigitte, minha segunda menina

“Melhorando meu mundo, me tornando multiplicadora da ideia e da vivência cotidiana do pedal na cidade: sou o trânsito, mas não sou congestionamento”

Avenida Paulista - Praça do Ciclista

Uma Easy Rider, uma aro 29 que me fez voar baixo e reduzir mais ainda meu deslocamento casa-trabalho. Depois da Brigitte, aprimorei muito meu pedal diário, e passei a viajar com muito mais conforto, e sobretudo, sem dores.

E, nesse quase um ano, aprendi diversas coisas que me ajudam a concluir:

– Não é  a condição de ciclista, pedestre, motorista, motociclista, que concede privilégios de espaço nas vias públicas. Ao contrário, na distorção absurda que é o trânsito dessa cidade, algumas dessas condições te colocam em uma vulnerabilidade injusta porém real. Todas as pessoas querem ir e voltar para casa em segurança, ninguém sai de casa para morrer, embora alguns saiam sem se preocupar em matar. Isso também é tema para outro post.

– Qualquer bike me levaria onde eu quisesse, desde que possuísse condições mínimas de segurança, o esforço seria maior ou menor, mas eu chegaria no meu destino. Só que agora eu descobri o conforto, e entendo na prática a diferença entre ter um equipamento que me leva e ter outro que flutua. Luto em admitir que estou fresca, mas permito concluir que estou mais seletiva. Dá pra ir de Merida, mas de Caloi eu também chego.

– Pedalar na cidade, cicloviagem = se dar opção. Eu posso continuar indo de trem, posso também viajar de carro, de ônibus, mas se eu quiser, posso também experimentar o que é viver a estrada no máximo de contato que ela pode dar. É uma questão de opção. Mas…

– FODA é para quem não tem opção alguma, a não ser a sujeição, aquele que mora nos confins da cidade e não tem (e /ou não quer) como optar pela bike, possui um transporte público mequetrefe e se opta pelo carro, conta com ruas esburacadas, para no congestionamento insano. Eu já vivi essa situação por muitos anos, e ainda e mais por conta disso tenho que questionar mais e sempre por políticas públicas que permitam a qualquer modal trajetos seguros e funcionais e garantam ao pedestre o mínimo de dignidade em sua locomoção.

– Não me tornei uma radical que detesta carro e cospe nos coletivos, mas aos recém completos 27 anos creio que sou bem sucedida ao me permitir vivenciar o ambiente e não me afundar em uma dívida financeira e ambiental. A frase é dura, mas é um contraponto apimentado e um ponto inicial para reflexão da cidade é para quem e para o quê, e uma reflexão marginal sobre como a posse de um automóvel costuma ter uma geografia mais generosa e uma infraestrutura (muito cara) voltada a receber bem para certamente receber sempre e cada vez mais gente.

– Ser uma boa condutora foi uma possibilidade de aprendizado de como ser uma boa pedestre.

– Ser uma boa ciclista foi uma forma de ser veículo+pedestre e ampliar o olhar sobre a cidade.

– Bicicleta é apaixonante, e exige e me transporta no limite das minhas possibilidades, e todo dia é dia de aumentar meu limiar.

Com tantas reflexões, abro precedente e sugestões para diversos outros textos a serem acompanhados também por esse blog.

Obrigada por acompanhar minha jornada até aqui, e espero que ela seja longa, ao sol e com pedais.

5 pensamentos sobre “Como tudo começou

  1. Puxa Pat, isso foi incrível!! Um verdadeiro looping de emoções! Gostaria muito de experimentar a cidade também. Pegar ônibus todos os dias, como você bem descreveu nos priva desse olhar.Te contei que meu pai me deu uma Caloi? Nem sei subir nela, hahaha, mas seria incrível se eu conseguisse! *_*
    P.S. Coisa linda o seu jeito de escrever, é tão a sua cara, que dá até para te ouvir falando🙂 Beijos Pat, take care!

    • Paloma!! muito obrigada por sua leitura! fiquei muito feliz que tenha gostado do texto…vou me dedicar muito a isso daqui pra frente…falar de bicicleta me faz bem pra alma!!!

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