A bike emprestada

Recentemente, conheci três países pertencentes a União Européia, e mal podia esperar para conhecê-los da forma mais prazeirosa para mim: de bicicleta. Bélgica, Holanda e França.

Estou em intercâmbio em Portugal, e ainda não possuo bicicleta própria. Em cada desembarque, encontrar bicicletas compartilhadas era um dos meus primeiros objetivos.

Não pedalei em todos os países, apenas na França e em Portugal, mas em todos eles, encontrei iniciativas públicas muito interessantes para a ciclomobilidade, e como pedestre percebi a quantidade de cidadãos que faziam uso desses serviços. Cidades grandes ou pequenas, não importava, quando o assunto era mobilidade urbana, a bicicleta aparecia como alternativa.

Na inocente tentativa de matar minha saudade de bicicleta, escrevo sobre o assunto, pra tentar também pensar e replicar idéias que podem ser utilizadas em outros lugares, e ser grata com essas bikes emprestadas que me trouxeram um pouquinho de sorriso nesses passeios.

Aveiro – Portugal

Numa segunda feira despretensiosa, meus amigos me convidaram a conhecer a cidade de Aveiro, que fica a menos de 50 minutos da cidade de Coimbra.

Barquinhos em Aveiro

Ela é conhecida como a Veneza de Portugal, com seus canais e passeios de gôndola. Confesso que foi um dos lugares mais bonitos que vi aqui até então.

 

Com 55 mil habitantes (aprox.), Aveiro é uma cidade pequena, com ares tranquilos, e fazer isso de bicicleta só ajudou a melhorar a impressão com a cidade. A iniciativa BUGA – Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro, foi uma grata surpresa desse dia, e de todos os serviços de compartilhamento de bicicletas que conheci até então, o menos burocrático e rápido para se utilizar.

Pegamos a BUGA no posto central, no coração da cidade, após um rápido cadastro e a retenção de um documento.Ela conta com 33 pontos de estacionamento, e é emprestada junto com um cadeado. Observei que BUGA Aveiro placaexistem paraciclos em pontos de interesse da cidade, como próximos ao shopping, museu e escola.

Munidos de 5 bicicletas, fomos conhecer a cidade na “altura dos olhos”, como eu gosto de pensar quando estou de bicicleta. 

Pontos positivos do sistema

– Uso gratuito e sem limitação de horário dentro do período de abertura dos postos da BUGA.

– O cadastro é muito rápido e sem maiores exigências. Com nossos documentos brasileiros, conseguimos utilizar a bike sem maiores delongas.

– O horário de funcionamento não é full time como em outros países, mas parece respeitar o ritmo da pequena cidade: das 9h as 18h, e o usuário pode utilizar a bicicleta por todo esse período.

Pontos negativos do sistema

Bike emprestada: Aveiro (BUGA)

O estado das bicicletas. Ainda que gratuito, e aliás também por isso, as bicicletas necessitam de maiores cuidados de manutenção, porque mesmo em péssimo estado, elas têm uso constante, pois são uma forma gratuita e saudável para ir ao trabalho ou conhecer a cidade. A bicicleta que eu peguei estava com freio muito ruim, toda enferrujada e com banco a ponto de cair, o que pode causar acidentes gravíssimos. A intenção é boa, mas em políticas públicas, a execução tem de ser melhor ainda. 

Bruxelas – Bélgica

A Bélgica, reino da Bélgica, fica na Europa Ocidental, e possui pequenos 30.528 kms de extensão e 10,7 milhões de habitantes.

É um pequeno e gelado país, sendo que dele conheci a sua cidade mais populosa, Bruxelas ( 1.018.804 hab.). Passei dois dias por lá, e no quesito mobilidade urbana, posso dizer que conheci uma cidade bem servida de transportes públicos (sistemas de metrô, trem, tram e ônibus locais, regionais e linhas internacionais), e com tradição ciclistica.

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Seu serviço de compartilhamento de bicicletas se chama Villo, e funciona todos os dias, 24 horas. A cada (indicados no site e conferidos por mim) 450m, existe uma estação de retirada e estacionamento. Isso facilita e muito a utilização da bicicleta na cidade. É um sistema para uso em trajetos curtos, e um estímulo para que seja curto é exatamente a gratuidade dos primeiros 30 minutos.

A primeira utilização requer que o usuário tenha 250 euros de limite em cartão de crédito (no meu caso, sendo estrangeira, era a única forma), ou que ele se cadastre e adquira o cartão de mobilidade Mobib, que é similar ao Bilhete Único para transportes coletivos utilizado na minha cidade, em São Paulo. Você pode optar a adesão ao sistema por irrisórios 32 euros ao ano, e também pode utilizar somente por 30 minutos e e estacionar, que sempre será gratuito portanto.

Estação de pagamento com cartão de crédito sistema VIllo Mobib

Pontos Positivos do sistema

– A organização do sistema. Ele possui um excelente website, o usuário dispõe de todas as informações para pegar as bicicletas nas estações, e possui um serviço de apoio via call center em caso de avaria, acidente e dúvidas. É tratado como um transporte público.

 O tipo e a conservação das bicicletas. São bicicletas excelentes, com blocagem nos bancos e regulagem de altura na mesa, assim qualquer pessoa que utilizar a bike e que precise regular as alturas, pode fazer isso sem ferramentas a mão. Ao passar pelos postos, não vi bicicletas depredadas, ou com pneus furados, enferrujadas e sem lubrificação. No site, existe a sugestão de que ao emprestar uma bicicleta com defeito, que você informe o número dela a Central, e será efetuado o reparo. 

– Facilidade para os cidadãos. Com cadastro efetuado e cartão Mobib, é só encostar na base das bicicletas, e escolher uma, o processo não demora segundos.

– Funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, e em toda a cidade.

Pontos negativos 

– Diferentemente de Aveiro, não consegui utilizar a bicicleta e a infra da cidade, porque intercambista e sofredora, evidente que meu cartão de crédito não ia estar com o limite de 250 euros (caução) liberados. É um ponto negativo porque como turista, nem sempre você irá de antemão ter se cadastrado para utilizar a bicicleta, e ao chegar na cidade terá de alugar. Reforço que é um ponto negativo para um turista, e que o compartilhamento de bicicletas em Bruxelas é voltado para pequenos trajetos casa-trabalho-atividades no centro da cidade, dos seus próprios cidadãos, portanto, para respeitar a estrutura do que propus como texto, coloco como um ponto negativo, mas de fato, é mais uma característica de sistema do que um defeito em si.

Paris – França

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A cidade luz. A parte todo meu sentimento a respeito de Paris, hei de confessar que das três cidades mencionadas  nessa postagem, foi onde percebi mais ciclistas no tráfego.

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O sistema da cidade é o Velib, e diferentemente do Villo belga, você pode       alugar uma bicicleta por um dia (1,70 euro)  ou uma semana (8 euros). É muito mais barato do que utilizar qualquer transporte motorizado pela cidade, isso sem contar que com o compartilhamento das vias, e com ciclovias pela cidade, você evita os famosos e nada “românticos” congestionamentos parisienses.

Também possui o sistema de pagamento via cartão, o Navigo, e o pagamento anual é 29 euros, e o sistema conta com gratuidade de 30 minutos, e dependendo da estação que você deixar a bicicleta, ganha um bônus DSCF0428de 10 minutos na próxima viagem: essa estratégia é para que se usem pontos um tanto mais distantes para levar a bicicleta, pois mesmo contando com inúmeras estações de desembarque, você pode não encontrar vaga para deixar a bicicleta. Se você se tornar um “usuário paixão Velib”, paga um tanto mais, mas tem mais minutos de gratuidade por viagem.

Pontos positivos do sistema

– O sistema possui (inédito até então para mim) um facilitador para o usuário ocasional, o “turista”, que pode reservar o serviço antes pagando com cartão de crédito, e utilizando na cidade conforme um cidadão faria. Isso facilita e muito para quem quer conhecer Paris, e é uma forma muito barata de locomoção, sendo melhor do que alugar uma bicicleta em lojas especializadas, pagando caro e correndo o risco de furto em estacionamentos não-velibs.

– É o mais flexível com períodos e preços; possui planos para jovens, turistas, planos diários e semanais. É uma forma de atendimento híbrido, e explora muito bem essa faceta turística de Paris.

Pontos negativos do sistema

– O uso do cartão de crédito e valores altos para caução. É um medida de segurança do sistema, pois assim já retém o valor da caução (250 euros) e os dados do usuário, contudo, poderiam existir formas alternativas de pagamento, visto que quem está viajando, certamente irá utilizar o cartão em outras necessidades, e pode não ter esse valor liberado, ou não pode comprometê-lo.

Caen (Normandia) – França

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Caen, essa pequena cidade na Baixa Normandia, me atraiu a visita e atenção por conta de sua importância histórica no desfecho da Segunda Guerra Mundial, pois foi uma das primeiras cidades em que os Aliados venceram o Eixo, e que foram libertadas dos nazistas. Visitei pois queria conhecer as praias do famoso Dia D, o desembarque, e para isso rumei de ônibus, trem e bicicleta para um dos pontos mais ocidentais da Europa. Com apenas 112.406 habitantes, ela possui um tráfego tranquilo, vias largas e bonitos canais para passear de bicicleta.

Bicicletas do sistema Veol - Caen

De todos os sistemas de compartilhamento que conheci, o Veol foi o mais barato para retirada da bicicleta (15 euros assinatura anual), e os primeiros 30 minutos valendo 1 euro, já incluso nessa assinatura anual. Ou seja, também saem gratuitos, como nas demais iniciativas mencionadas.

Você pode fazer um cadastro enviando seus dados através de formulário, e entregando em pontos de interesse da cidade.

Pontos positivos do sistema

– Curiosamente, é o único sistema que conheci que possui assinatura coletiva, que é para estimular o uso por famílias, e pessoas que vão trabalhar juntas, por exemplo.

Poste de pagamento e retirada da Veol, em Caen

– A cidade possui muitas rotas compartilhadas e muitas ciclovias. E as rotas são urbanas e também rotas turísticas, que levam a outras cidades e as Praias. As bicicletas Veol só podem ser usadas no perímetro urbano* .

– Muitos postos em todos os pontos da cidade, o que facilita e estimula uso apenas em curtos trajetos.

Pontos negativos do sistema 

– Diferentemente de Paris, mesmo com a vocação turística da cidade e com todas as inúmeras rotas de cicloturismo propostas, o sistema é apenas para uso interno. Novamente, concordo que seja um sistema voltado para o uso dos cidadãos e m curtos trajetos, mas a bicicleta é uma alternativa saudável e não poluente, que pode se tornar um atrativo para um turista que pouco pedala em outros locais, e pela segurança e topografia da cidade, poderia se interessar em utilizar o serviço.

– Processo burocrático para fazer o cadastro, e esse demora (após postagem), dez dias para ficar pronto. Poderia ser simplificado, já que é voltado para os cidadãos da cidade.

E o que tirei de todas essas experiências? 

Confirmei o que já sabia: se o poder público investe em mobilidade através da bicicleta, o uso será crescente. A demanda existe e é enorme, e verifiquei isso em cidades de diferentes portes; desde a conturbada, caótica e movimentada Paris, até a pequena e calma Caen, ou fabril e com caminhões gigantescos, como Bruxelas. Gratuitas ou não, as bicicletas compartilhadas são um excelente apoio a formas alternativas aos carros individuais para locomoção dentro das cidades, impactando não somente na sanidade ambiental, mas – e também, na saúde dos cidadãos, que podem fazer suas idas a banco, lojas, passeios de final de semana, com a bicicleta. O mundo está ficando sufocado e obeso, e digo por mim que a bicicleta é uma forma barata (quando não gratuita) de reverter e atenuar diversos problemas de saúde física e mental.

Em São Paulo já possuímos o Bike Sampa, mas poderíamos ter muitos outros, e de preferência, sem a interferência do setor privado. Quem sabe se o setor público topasse esse desafio de compartilhamento de bicicletas, percebesse também que seu uso iria implicar em fiscalização e bom uso das leis de trânsito, compartilhamento seguro e RESPEITOSO das vias, e por consequência, cidades menos barulhentas, poluídas e com um trânsito menos letal.

 

3 pensamentos sobre “A bike emprestada

    • Muito obrigada pela leitura e pela sugestão Jorge!!!

      Eu conheço isso, eu acho ótimo! São Caetano tem esse compartilhamento de bike, Mauá um bicicletário gigantesco e bem montado, o ABCDM dando exemplo na ciclomobilidade!

  1. Pingback: BBB – Berlim, Bicicleta, Barcelona | Ciclófila

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