BBB – Berlim, Bicicleta, Barcelona

Em pouco lugares aqui na Europa me senti em casa como me senti em Berlim e Barcelona. Em diversos aspectos, essas cidades européias me remetiam o tempo todo a minha querida São Paulo. Um deles foi o tráfego e a mobilidade.

Como turista, experimentava conhecer as cidades a pé, de bicicleta ou transporte público. E ambas as cidades que intitulam o texto, tem dimensões e ritmos que me lembram muito São Paulo. Pedalei em Amsterdam, a cidade ícone da duas rodas, mas buzinasso, caos, pedestre perdido, idoso atravessando, cachorro correndo, ambulância cortando…eu vi mais ao sul dos que na baixa Holanda.

Já escrevi sobre o compartilhamento de bicicletas em cidades como Paris, Bruxelas e Caen aqui, mas ao meu ver, são cidades que não se aproximam tanto da minha memória visual (e auditiva!) do trânsito de São Paulo como a alemã e a espanhola se aproximaram.

E, para minha surpresa e alegria, têm muito a contribuir com exemplos de ciclomobilidade.

Mas, para além dos dois sistemas de compartilhamento de bicicletas, essas cidades também tem a naturalidade no trato com a bicicleta que eu invejei e muito que minha babilônia cinza tivesse.

Bicicletas em Berlim saindo da estação de trem sem maiores burocracias

Bicicletas em Berlim saindo da estação de trem sem maiores burocracias, com duas crianças nas cadeirinhas

Vi mulheres grávidas, mães com duas crianças na bike, bicicletas tandem, bicicletas com tanque de cerveja, bike taxi.

Vi muitos avisos indicando para pedestres atravessarem na faixa, e o trânsito catalão me pareceu particularmente caótico.

Mas, permissão para inversão, São Paulo não me lembra essas duas cidades. Como é possível essa sensação?

Nessa madrugada, mais um ciclista foi atropelado por um motorista bêbado em fuga no bairro do Campo Limpo (ZS).

Daqui de Portugal, recebi a triste notícia do rapaz que perdeu o braço para que o outro, não perdesse seu espaço, seu tempo, sua madrugada em alta velocidade no voltante.

O vice não é igual o verso.

Aqui vi mulheres pedalando de saia, vestido, salto…a bicicleta é veículo,e por acaso eu preciso trajar lycra para dirigir um carro? não ouvi comentários maldosos ao passar uma senhora numa bicicleta. O feminino ciclista não era uma atração.

Sinalização terrestre para ciclista em Barcelona

Ciclistas de todas as idades, com todas as motivações: havia quem passeasse, havia quem fosse ao trabalho. Ciclista não é ET. Pedalavam tão tranquilos, com a tranquilidade de quem não tem que responder se vai chegar “fedendo” ao escritório.

Bicicletário. Paraciclo. Não eram escondidos e marginalizados nos fundos das garagens. Era na rua, e havia espaço para estacionamento dos carros. Todos os veículos compartilhando as vias.

Minha reflexão sobre essas duas cidades e a minha reflete meu sentimento sobre meu intercâmbio: eu não trocaria minha casa e meu país pelos locais que passei, mas isso não me impediu de enxergar as contribuições que cada lugar tem de replicável para outras cidades.

Quando comparo Berlim, Barcelona e São Paulo, não o faço somente pelo carinho e semelhança subjetiva e pertencente talvez somente a mim. Faço também pela provocação que pretendo fazer com que o meu lugar possua as mesmas condições que esses conquistaram para seus ciclistas, pedestres, cidadãos. Desde a infraestrutura até atingir a discussão sobre a mentalidade, não entendo que São Paulo possua complicadores imutáveis para um trânsito menos fatal, excludente, poluente e carrocrata.

Não aceito e não entendo os argumentos que tratam São Paulo como um local sem solução, e que colocam o ciclista como um potencial suicida. Eu pedalo por mim, e impacto no trânsito sendo um carro a menos, uma tarifa a menos. Ninguém sai para rua para morrer, e o incorreto é quem sai sem importar-se em matar.

Volto para casa em breve intentando discutir, melhor entender e não deixar de pedalar para poder contribuir para esse processo necessário de humanização do trânsito paulistano, desejando que um dia sejamos exemplos para outros locais.

A experiência européia me deixa com mais saudade de casa, de pedalar e perceber a paulicéia e seu desvario depois de seis meses longe dela. Espero que ela esteja com tanta saudades minhas quanto eu dela, e que o trânsito me permita continuar indo e voltando todo dia, com minhas lembranças alemãs e espanholas em cada pedalada no asfalto brasileiro.

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